sábado, 8 de outubro de 2011

A Peixeira e o Rei...Conto partilhado


A Peixeira e o Rei
Os dias passavam sem muito alarido. O rei com suas flores, a rainha com seus amores e o povo...Bem o povo com suas dores.
Este era um tempo onde a vida seguia seu curso quase que mecanico,quem era pobre seria pobre e seu filho  também, e o filho do filho,até o final dos tempos. 
Era como se diz hoje "cada um no seu quadrado" e aquele que por acaso não tivesse um de seu ,que se virasse como pudesse.
O fato é que todos, sem excessão, haviam de cumprir sua sina.
Voltemos ao entendiado rei,este não sabia mais o que inventar, se cansara logo de bajulações, economias,estratégias. o povo pedindo e pedindo...
Seus pensamentos são interrompidos pelo escravo que chega  avisando: 
_Ela chegou magestade ,está na cozinha fazendo a entrega.
Os olhos do rei avivaram-se...Dispensou o serviçal e estratégicamente se dirigiu a jardins dos fundos,próximo a saida da cozinha. 
Sempre gostava de mexer nas flores porém agora isso tinha um sabor diferente.Era qualquer coisa suave,gentil e prazeirosa. 


O jardineiro, logo que avistou a peixeira, passou apressado do quintal para os aposentos reais, depois de uma donzela lhe fazer da janela o sinal para entrar.
Ansiava sempre tanto por este momento, que nem sabia se lhe sabia melhor esta corrida até ao quarto dela ou tudo o que depois se seguia, o ritual era sempre o mesmo, ela esperava à porta por ele, despia-se, ele ficava esgazeado a olhar para tanta brancura e quando voltava a si já ela o empurrava para a cama.
Era ela quem o despia e num instante se punha em cima dela, como se fossem só um. 
Não sabia precisar o tempo que demorava toda a cerimónia, mas que ficava nas nuvens, ai isso ficava!
Por ele a vida podia ser só assim, correr do jardim até ao quarto dela, fazer amor, descer á cozinha para comer, ir apanhar um pouco de ar e fazer as necessidades no campo, tomar um banho na água gelada do rio e voltar para ela.
 Mas não nasceu com sorte e a sua condição obrigava-o a trabalha no duro! 
Tê-la ali tão perto e tão apaixonada tinha sido a grande vitória da vida dele!
Formosa e segura lá seguia a moçoila, saiote comprido, do povo, rodando ao balanço das ancas para encanto do rei.
Velho ressequido por guerras de bastidores, conspirações falhadas e outros desamores sentia-se entediado á anos, desde que a Rainha adoeceu e agora aquela moçoila
Rapariga para os seus 30 anos, não se lhe conhecia marido nem andava pelas más-línguas do burgo a moçoila enfeitiçava-o...agradava-lhe particularmente…

O que ia no coração da peixeira?

_Olá senhor rei.Disse-lhe com leve sorriso
_Olá senhora peixeira.Respondeu-lhe o rei no mesmo tom.
O rei conhecia a todos no povoado, ou quase ...Nunca havia visto esta moça antes.
O primeiro encontro deles foi uma confusão engraçadissima e foi por conta exatamente disso.
O Monarca em questão tinha costume de se aventurar na jardinagem.Quando estava muito alterado dispensava o jardineiro e ele mesmo, para a tristeza das pobres flores, se ocupava das plantas.
É claro que o jardineiro nunca lhe  dizia nada, saia  calado e desejava um bom dia a seu rei, porém pensava consigo mesmo na trabalheira que teria no dia seguinte para endireitar o estrago todo.
A moça passava perto da cerca quando escuta aqueles resmungos, olha em volta e nada. Se abaixa e percebe o homem devastando as plantas como se fosse decepa-las todas, estaca um estante e pergunta:
_Que diabo estas fazendo homem de Deus!Vais destruir o jardim  do castelo, estás  com raiva do mundo? Num instante ela tira a tesoura de suas mãos. 
Não deves fazer a poda neste angulo reto, quando chover vai entrar água dentro do talo.Sempre em diagonal, veja. Assim quando cair a chuva ,ela escorre e não entra.
O rei que estava com um chapeu encobrindo a cabeça, ali ficou escutando.Nunca ninguém havia lhe dirigido a palavra naquela intimidade.Disse com certa insegurança
    _Acho que para jardineiro,eu ficaria bem melhor como rei.
Ela deu uma sonora gargalhada  e disse a seguir:
    _Acho que este cargo já está preenchido amigo. Porém se  perder o de jardineiro podes procurar de peixeiro, este está sempre em falta.
         Tenha mais cuidado com as plantas, trate-as com carinho.Tenho que ir agora ,daqui para dois dias eu volto  a trazer peixes para o castelo, se ainda não perder o seu  emprego até lá, te ensino alguma coisa mais de jardins.
_Espere, disse-lhe o rei. Mas, a moça corria já em direção a saida  pois tinha outras entregas a fazer. E o rei não conseguiu desfazer o mal -entendido. Ela não o reconhecera.
      O segundo encontro porém demorou um pouco mais a acontecer.O rei tinha seus compromissos e a peixeira, suas entregas.Toda vez que ela passava pelo jardim olhava em volta.O jardim estava bem  bonito e nem sinal do desajeitado jardineiro.
 Quando se encontraram novamente  foi por acidente, ele estava de quatro no meio dos arbustos e a moça vem , e sem o ver,cai-lhe por cima.  Aquilo foi uma agitação geral, a rainha estava na janela quando viu o acontecido ,imediatamente mandou os serviçais correrem a ver se o rei havia se machucado pois a peixeira caiu-lhe em cima um cesto enorme de peixes.
Todos ficaram alterados neste dia. A peixeira e o rei estabacados no chão com peixes por todo lado.
A cena era ridículamente engraçada.Certificando-se que ninguém se tinha ferido, os dois desataram a rir  feitos dois adolescentes. Quando os serviçais os alcança já estavam compostos.As formalidades cumpridas, foi então que  moça soube que este era o rei. Desculpou-se cheia mesuras e retirou-se.
_Então este é rei.Pensava ela consigo.Que desavisada eu sou!
   A rainha e seu marido eram bons amigos.casaram-se para satisfazer as  convenções.Ambos eram  principes de  povos diferentes.Quando se conheceram gostaram-se tanto que fizeram um trato,fossem sempre sinceros um com o outro,pelo  fato de serem realezas lhes pesava o fardo dum casamento de conveniência economica.O povo não ligava a minima para os sentimentos de seus reis.No começo o jovem que ainda era principe ficou aborrecido,quis se negar a tal acordo,pois teriam de ter filhos. E teriam ,disse-lhe ela.Cumpririam tudo que mandava o protocolo.Estava prometidos desde o nascimento ,os dois.Se viam só  em datas especiais.quando chegasse o momento ,marcariam as bodas. Era isso ou achar outra candidata a altura, para o enlaçe.Qual era o motivo da proposta da jovem?
A princesa nutria afeto  pelo jardineiro do castelo. Eis ai o impasse.
O  principe que até então achava que seria um rei feliz com sua futura rainha, começa a compreender o mundo real.
No seu entender, seus pais eram pessoas felizes no casamento, ou não?
Que fazer agora?! Como resolver isso?
Pensava que se casando com aquela moça  com o tempo e a convivencia  iriam gostar um do outro.Porém seu coração estava preenchido por outro.
Falou com sua mãe na possibilidade de libertar-se de seu compromisso. Sem revelar o motivo, ou prejudicar sua amiga. _Por que? Perguntou a rainha mãe.
Se não te agrada a jovem, te arrumamos outra meu filho.Vamos viajar um pouco.
Voce as conhece e decide,tens tempo ainda.
Começaram então uma via sacra em segredo, pois não desfizera o compromisso com a moça prometida.
O jovem principe gostara dela. 
Uma  das outras moças candidatas era feia, outra uma velha, outra ignorante, outra tagarela...
Quando voltaram a se encontrar, o principe e a princesa, marcaram então a bodas.
E estabeleceram assim, sua cumplicidade na vida.
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Hoje rei e rainha, ambos tem dois filhos, um rapaz em idade de casar e uma pricesinha prometida ao reino vizinho.
 A rainha é cumpridora de seus deveres, amiga do rei e mãe de seus filhos,herdeiros do trono.
E sempre protegida e salvaguardada  pelo rei, mantem seu jardineiro querido  perto de seu quarto e de seu coração.
O rei por sua vez,protegido pelo cetro e pela sociedade machista mantém seus casos, sejam públicos ou secretos, não importa. O povo perdoa o "deslize".
Os serviçais sabiam que o rei  não visitava o quarto da rainha, desde o nascimento de sua filha, há  anos, então inventaram que ela era adoentada.
Havia sim uma passagem secreta mas, esta era usada por um certo jardineiro.
Agora...Tem aqui um rei entrado em anos já. Alguma coisa faz seu coração balançar, o encontro daquela peixeira, o tédio da vida de rei...Vai saber.
Sempre que podia ele dava um jeito de encontra-la, conversavam por poucos minutos.Era bom, e ambos pareciam gostar muito.
_Pode um rei virar jardineiro? Disse  a moça a sorrir. E o rei responde:
_Pode uma peixeira virar rainha?
_Bem que eu poderia ter sido rainha, sabe. Minha vó o era.Um dia conto-lhe  esta história magestade.
E a peixeira contou...
 _Minha vó era rainha sim mas, um dia ela desapareceu de seu reino sem qualquer explicação, e coincidentemente, um sábio ermitão que vivia nas redondezas também e nunca mais foi visto pelo reino.
Ela cansou de ser rainha e ele de ser ermitão.Só eu sei o que  aconteceu pois sou neta deles.Tenho provas de que sou herdeira dela.Ela tinha guardado em seu poder, joias que sua avó deixara-lhe.
Não sei dizer direito mas,  não me importo de ser rainha, princesa ou peixeira, é claro que ninguém sabe. Gosto dessa liberdade de peixeira.
Eu conheço quase todas as ervas dos campos, aprendi muito sobre as marés, conheço as pessoas agora, e me sinto bem assim.
Os dias passavam e a cada dia a moça contava um pedaço de sua história
_Minha mãe morreu de parto.Cresci com meus avós na floresta, era solitário mas bom, sabe
Meu pai é o melhor pescador destas águas.
Quando meus avós morreram, vim morar na aldeia com ele, e desde então faço as entregas, por isso virei a peixeira senhor rei.
A rainha não deixou de notar alguma diferença no marido, mencionava seu bom aspecto.Parecia mais jovem até.
Um dia, por acaso ela menciona a moça do peixe e o marido lhe confessa abertamente seus sentimentos pela moça, e conta tudo, desde o primeiro encontro. O mais surpreendente é ver um rei, acostumado a ter tudo,se sentir intimidado por uma simples peixeira.
_Ho! Mas ela pode ser qualquer coisa, não uma simples peixeira .
_Não dormiste com ela inda?! Perguntou a rainha perplexa.
Com um aceno o rei confirma que não
A rainha olha para ele como se o visse pela primeira vez na vida
_Estás apaixonado homem! Faz quase dois anos que conversa com esta moça.
Devem saber muito um do outro.Que espera para pega-la para voce? Deixe adivinhar, ela não te quer.
O rei inseguro responde:
_Será! 
_Acaso perguntaste se ela te queria já?
 O rei acena que não com a cabeça.
Que confusão nesta sua cabeça querido rei. Precisas pensar no que vai fazer. Ou nem pensar e dizer logo tudo a ela.
A rainha surpresa com as revelações, não esperava que um dia isso acontecesse mas, aconteceu. Secretamente se sentia-se culpada por ter seu homem sempre por perto e o marido amigo era um solitário, tinha lá suas amantes mas nada incomum. O que ela não entendia era o comportamento dele agora.O rei podia ser qualquer coisa, menos tímido.
Ela os via pela janela ,sabia que se encontravam no jardim, todos  no castelo sabiam.
percebia que ele andava pensativo ultimamente. Pensava ser preocupações com as bodas do filho mais velho.
O rei muda de assunto.
_Estou pensando em coroar nosso filho no dia do casamento, que acha?
A rainha arregala os olhos.
_Quer passar a coroa já?
_Não cansas de ser Rainha? Saiba que ser a Rainha-mãe também tem suas vantagens.
Venho pensado em tirar este "peso" de nossas cabeças. Fizemos já nossa parte querida. Nosso filho vai gostar de ser rei , acredite. Pense, depois conversamos mais sobre isso.
E a rainha pensou. Acertaram tudo para a coroação.
No dia do casamento o povo teve um novo Rei e Rainha. E esta não trouxe nada além de sua bagagem, quem sabe se o novo rei agora, tenha sorte de ser amado pela sua Rainha?
O ex_rei comunicou que viajaria por algum tempo, buscar novas terras e mais conhecimento.
Assim de certeza ninguém estranharia sua ausencia.
A Rainha -mãe não poderia estar mais feliz. Desejou ao marido uma boa jornada.
Dizem que depois disso ninguém nunca mais ninguém viu o ex-rei.
Somente um pai , pescador, sabe o que se passou.
Era noite alta, quando alguém bate na porta do casebre e pergunta pela peixeira.
Um bebado que ficou a festejar até tarde, andando cabaleante pelas ruas, ve  aquele casal cruzando o portais da cidade de mãos dadas.Escuta aquele leve murmurio.
_Nem sei ainda seu nome Peixeira
_Idalina.E o seu querido rei?
_Elias.


Este era um tempo qualquer.
Ninguém é necessariamente para o que nasce.
Pode ser somente para o que nasce, pode ser mais, ou pode ser menos.
Cada um é que sabe de si.
************************Fim******************************
Neste conto Hilda contou com participação de Paula Justiça e Antonio Fazendeiro.

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