quarta-feira, 9 de maio de 2012

O Gnomo Triste....Por Hilda Milk


Passeando por terras estranhas, ela era atenta a tudo que a cercava. E fazia isso por puro instinto, tinha sido educada para se proteger.
Diziam-lhe que carregasse seu amuleto sempre perto do peito, pois as criaturas do mundo externo, que eram por demais cruéis, poderiam sugar-lhe a energia toda até a morte.
-E Porque fariam isso?! A pequena retrucava.
-Se me sugarem toda, vou morrer, e onde vão buscar nova força?
-Ai minha filha!!! Eles não pensam nisso na hora de alimentarem-se, estão sempre famintos. Portanto, tome cuidado.
Por alguma razão… ou por razão alguma, ela fora a escolhida.
Mesmo seus iguais não entendiam isso, ela era só uma operária, nem tinha sangue nobre, e nem era a mais esperta do povo ou a mais sábia ou sequer a mais bonita...
- Como aconteceu então? Perguntou o médico para Ivone.
- Dizem que foi numa noite de tempestade. Todos se abrigaram na grande casa. Nas tempestades as casas eram, na maioria, carregadas pelo vento forte, por isso todos corriam se abrigar na grande casa, esta era esculpida na rocha da montanha mais alta. E lá estavam todos dentro, sãos e salvos, menos ela.
Minha avó que contava esta história doutor... Dizia que a moça em questão era nossa ancestral, sonhei com ela esta noite, pensei em contar para que não seja esquecida. Eu própria não lembrava mais. Podia tê-la contado e não contei. Fico-lhe imensamente grata por me ouvir também, querido amigo, pois sinto verdadeira necessidade de passar isso adiante.
O médico ficou a observar aquela senhora tão altiva e dona de si... milionária e sozinha naquele leito de morte. Na folga que tinha, escapava até ao seu quarto para fazer-lhe companhia e não era por pena, ou era... Sabe-se lá!
- Que é isso Ivone?! É um prazer ouvi-la e para falar a verdade estou bem curioso com sua história. É um conto de fadas, me parece.
- Sim ...Vovó gostava de dizer que éramos filhas de gnomos. Me sentia muito bem em ser.
- Não quero perder nenhum detalhe então... Não é todo dia que conheço uma gnomo.
Doutor Di Valério despede-se sorrindo. Pensava nesta criatura estranha com bastante frequência.
Dona de um património considerável, ela trabalhara a vida inteira e era benfeitora de várias entidades carentes, incluindo este hospital. Recebia flores, com votos de melhoras de todas as partes, todos os dias. Porém, ninguém a visitava, com exceção de seus assessores, claro.
No dia seguinte disse-lhe ele:
-Tive uma ideia Ivone... quer contar esta história para as crianças?
A velha senhora, confusa, olhou-o estupefata. O seu bom amigo endoidou!
-Pedi permissão e deixaram, que você contasse a sua histórinha pelo interfone da ala infantil, querida, que acha?
-Posso tentar... Fazemos uma primeira tentativa e se as crianças gostarem eu continuo.
-Vão gostar, tenho certeza!
E assim foi... E as crianças adoravam escutar aquela senhorinha de voz suave ...
E agora, por favor continue a contar a história do duende triste.
E ela continuou...
A mãe de Slavia percebeu sua ausência, mas devido ao grande volume de pessoas dentro do recinto pensou logo que a moça estava noutra parte da casa.
No dia seguinte todos retornaram as suas casas e afazeres, aquele vilarejo ficara uma verdadeira bagunça.
-Alguém viu Slavia? Perguntava sua mãe para um e outro.
Chegando no vilarejo tiveram uma surpresa, todas as cabanas estavam derrubadas e o caos reinava por todo lado...
Porém uma casa estava intacta e da chaminé da mesma vinha uma fumaça e havia também um cheiro de café no ar... A porta escancarou-se e dela saiu Slavia
-Ai filha que preocupação me deu, onde diabo você se meteu?
-Estou bem mãe...Me escondi debaixo da cama e quando tudo passou, voltei a dormir.
Claro que ninguém acreditou naquilo mas por agora ficaram todos descansados.
Dois dias depois, quando a aldeia voltava à normalidade, o conselho resolveu chamar as duas, mãe e filha, para darem maiores explicações sobre o sucedido.
A mãe sabia que quando o conselho chamava, era melhor não deixar esperando muito. Porém nem ela entendia o que tinha se passado ainda.
-Explique Slavia... - disse em tom autoritário.
-Não sei como mãe, quando fui sair do quarto ontem, na hora da ventania, abriu-se uma clareira na minha frente e era um lugar completamente estranho mas muito bonito. Fui andando até que achei uma criatura estranha caída no chão, ela parecia estar morrendo. Era de uma beleza incrível e tão frágil que não tive medo. Perguntei-lhe se precisava de ajuda e ela só me olhava. Olhei em volta a ver se havia alguém a quem pudesse pedir ajuda e não tinha ninguém. A floresta parecia vazia de tudo. Nem ruído de pássaros, nem folhas caindo... nada.


Foi quando ouvi aquela voz musical...
-Pode me levar para casa?
Me virei e olhei em direção da criatura no chão e ela parecia dormir...
-Por favor, só quero ir para casa.
Ela falava na minha cabeça...
Sem pensar duas vezes a peguei no colo e disse-lhe que apontasse a direção. Ela era tão leve que parecia uma pluma. Seguíamos por um caminho de pedras, quando de repente um bicho salta em nossa frente. Um enorme sapo fedido... Um nojo!
Ele ainda fazia um ruído estranho dizendo:
-Não estás cansada de carregar este peso menina?
A pequena criatura saltou do meu colo feito um raio. Mesmo assustada eu percebi o alívio que foi para meus braços. Muito estranho mesmo!
 E o bicho dizia-lhe coisas num dialeto que eu não compreendia, mas pareciam brigar, assustou a criatura, que saiu correndo...
Ele ficou me encarando por algum tempo e disse em seguida:
-Então afinal você veio...
-Não me diga que me esperava?!
Eu queria correr também, porém fiquei pregada no chão.
-Eu não, mas eles sim, te esperam faz tempo. Por isso aquela lá estava na porta da entrada, espreitando.
-Como poderiam saber que eu vinha?!
-Não sabiam, tinham alguma esperança somente. E agora finalmente você veio... Cuide-se garota, vão devorá-la em dois tempos.
-Ai ai... Não estou gostando disso.
Ela sentou no meio do caminho e falou logo:
-Desembuche sapo feioso, que não tenho o dia todo.
Ele fixou Slavia:
-Não está com medo de mim, está?
Engoliu em seco. Estava morrendo de medo, mas aguentou firme.
-Porque estaria?! Na minha aldeia tem sapos de monte, se bem que estes são mais limpos e não tão fedidos.
-Pelo amor de Deus! Que há com você, por acaso não gosta de água?
-Você não pode ficar aqui ... volte para o lugar de onde veio. Aquele que você carregava até agora vai voltar e trará mais de sua espécie.
Perguntou-lhe por quê.
-Não sentiste nada quando a criatura saiu de seus braços?
-Sim... Ela era muito leve quando a peguei porém, quando saiu, senti um alívio, ela estava bem mais pesado então...
-Era você que era forte e foi ficando fraca e aquela criatura linda estava drenando suas forças, e se não estivesse aqui vigiando, ela teria te matado, sua tola!
-Porque faria isso, por Deus?!
-Porque estão morrendo. Depende de força para viver, esta que você carrega.
-Espera, por favor. Conte do princípio.
O grande sapo acomodou-se numa pedra e começou.
-Há muitos anos luz aqui vivia um povo pacato e gentil... Ajudavam os viajantes de todos os tempos, oferecendo hospedagem e comida, todos tratados com amizade e respeito.
Quando eles apareceram, eu era menino na época, foi uma comoção entre minha gente. Tinham esta variante de cor, nós os chamávamos filhos das estrelas. Tiveram-se o planeta despedaçado por uma chuva de meteoros.
Demos-lhes nossas casas, nossa comida. Mais ainda, demos-lhe confiança.
Não demorou muito para que começássemos a desaparecer... Eles nos sugavam até nos dissolvermos em fumaça.
Pasmada, a moça perguntou:
-Mas ainda estás vivo, porquê?
-Por causa deste cheiro de sapo fedido, não conseguem chegar perto - disse dando um meio sorriso.
-Antes de meus pais morrerem, me ensinaram um feitiço e enquanto for sapo, não me pegam.
-Escute ... Ouve algum movimento? A menina acena de forma negativa.
-Tudo que havia aqui desapareceu... Eles se agrupam e escolhem um para ficar na porta dos mundos à espera. E qualquer um que chega, levam até o grupo, onde se alimentam todos.
- E quando ninguém vem?
-Eles escolhem entre eles mesmo o mais forte , e o devoram.
-És o ultimo de sua espécie então... Lamento muito!
-Vai agora, eles vão voltar logo. E por favor não entre mais na passagem.
Quieta, Slavia seguiu caminho até a entrada donde tinha vindo.

-E Isso foi tudo mamãe, acordei em minha cama hoje pela manhã. Achei que havia sonhado, sabe.
A Mãe ficou pensativa. Como iriam contar esta história absurda para o conselho? Era uma coisa que a atormentava.
 -Acredito em você filha. O que me impressiona aqui é este mundo ainda existir... Aquele sapo que viste é um duende e esta história é muito velha, porque minha avó me contava quando criança. Nunca contei ela para você, pois esqueci-me por completo dela. Espere, que eu tenho algo que ela me deu nessa ocasião.
A senhora correu a um baú, que havia no alçapão e vasculhando nas velharias, achou uma pequena pedra com um barbante amarrado e pôs em volta do pescoço de sua filha, dizendo:
-Este é um amuleto que vai-te salvar. Com ele só poderás doar o que te sobra, nunca o que te falta....Ou coisa parecida...
No dia seguinte, na hora marcada, as duas compareceram perante o conselho.
Por mais incrível que a história fosse, resolveram contá-la tin tin por tin tin.
No final os conselheiros estavam espantados:
-Isso deve ter sido sonho, não é possível!
O mais velho, que estava calado até então...
-O que acabaram de ouvir é tudo verdade e só os velhos se lembram. O gnomo ainda guarda a passagem então... que coisa! Deixe-me pensar... Ele deve estar por volta dos 300 anos agora.
-Ele está vivo sim senhor - diz Slávia sorrindo
-É um sapo feio e fedido... Disse-me que foi o jeito que encontrou de sobreviver, pois as criaturas não suportam seu cheiro.
-Você foi escolhida para entrar lá menina, agora deve cumprir seu legado com sabedoria. Serás rainha deles. És uma portadora de luz paz e calor.
Slávia estava confusa ainda, mas perguntou:
-Porquê eu senhor?
-Também gostaria muito de saber... Quem sabe o tempo trará esta resposta.
-Qual o papel daquele triste gnomo sem nome nisso? Se ele guardava a entrada, por que me deixou entrar?
O ancião deu um sorriso conciliador
-Ele não impede que entrem querida. Ele impede que as bestas saiam.
-Porquê??
-Porque são famintos insanos, e devoram tudo em volta. Quando eles chegaram naquela dimensão eram menos de uma dúzia, como havia muito "alimento", se multiplicaram a tal ponto que esgotaram as reservas de energia, prejudicando assim sua própria existência. Agora eles se consomem a si mesmos quando estão ameaçados de morte imediata e vão fazendo isso, enquanto esperam um salvador. Neste caso, uma salvadora, que é você .
-Tens compreensão de sua responsabilidade agora? Toda vez que entrar terá alguém a sua espera. Dê somente o necessário e este distribuirá aos demais.
-O gnomo é imortal? Porque ele mesmo não distribui o alimento mestre?
-Porque ele é naturalmente luz pura.
A falta de entendimento da moça a fez calar.
-Vá vivendo e aprendendo menina. No momento, o mais importante é ter conhecimento de seu poder. Sem ele, poderias ser manipulada por seres que parecem mansos e bonitos, mas que só querem viver, a qualquer custo.

O médico  sabia que o tempo de Ivone se esgotava e toda a vez que se encontravam ele percebia a felicidade estampada no seu rosto, e ficava deveras espantado por ela não sentir as dores tão comuns nestes casos.
Seria fantasia sua dizer que o fato de ela se entender como descendente de gnomos a fizesse resistir a dor?! Sem os analgésicos ela passava mais tempo lúcida e por conseguinte, contando suas histórias, e estas pareciam jorrar de dentro de sua cabeça.
Ela intercalava suas histórias, interrompia a maior e ia contando as menores, para os pequenos da ala infantil, e o bom doutor gravava todas.
-E Slavia chegou a compreender tudo isso Ivone?
-Sim, acho que se não compreendeu , pelo menos ela aceitou seu destino. Como eu aqui doutor, aceito que vou morrer e não demora muito - disse Ivone com seu sorriso habitual.
-É bem interessante a visão que tens de vida e morte amiga. Alguns ficam demasiado deprimidos com a eminencia da morte, outros revoltados e frustrados. Para uma agnóstica, você acredita em muitas coisas...
-Que somos eternos, por exemplo - diz a senhorinha sorridente.
-Somos?!
-Sim e vamos vivendo, até descobrirmos o segredo da evolução do humanismo. Sabe que penso, doutor? Agora tenho tido tempo para isso. Entramos dentro de um ciclo tão vicioso, que qualquer coisa fora do padrão é imediatamente desconsiderada. Qualquer tentativa de mudança de comportamento, causa verdadeiro pavor. O mundo mata-se, para defender uma religião e proteger suas fronteiras, como se estas fossem absolutas. Como pode a igreja pregar igualdade, construir templos com estruturas riquíssimas, com engenharia de última geração, quando ignoram muitos que não tem sequer um simples teto para cobrir suas cabeças? Há ricos que pagam verdadeiras fortunas para emagrecer, quando o que podiam fazer era simplesmente dividir seu pão de vez em quando. Veja bem, meu caro, não sou a dona da verdade, então diz quem é, por favor. Ninguém quer responsabilidade com a miséria e todos querem colher os louros do triunfo.
-Nesta sua história, eu percebo que a "fome" é determinante e cega.
Ivone estava lutando contra o tempo. Dizia ser importante contar tudo que lembrava sobre o outro mundo.
Slávia entrava agora com frequência no mundo exterior. E cada vez que voltava todos queriam saber de tudo que se passava.
 -Se você pode entrar e sair, eles certamente também podem - diziam os mais velhos.

Slávia contava que antes, quando as criaturas viviam em seu mundo de origem, eram regidas por um Deus que lhes proporcionava tudo, uma espécie de sol talvez. Houve uma grande mudança devido a uma forte explosão e estes caíram nesta terra, onde agora estão.
A menina foi crescendo rapidamente... pois a cada viagem ao mundo exterior ela demorava anos, ficava velha lá e quando voltava, ficava jovem de novo, só as lembranças é que ficavam.
Slavia se casou, teve um filho e por quase trinta anos não foi mais ao mundo exterior.Um dia ela contou toda a história para sua neta Zelenka, deixando também seu amuleto, e desapareceu. Nunca mais ninguém ouviu falar dela.
 
-Porquê!? - perguntavam todos.

-Vou saber! - disse a boa senhora - Talvez fosse fazer companhia ao sapo gnomo, ou virar ela mesma a carcereira das criaturas ou mesmo... se sacrificar de vez...
O que sei é que, desde então, nunca mais ninguém de nossa linhagem foi ao mundo exterior. Os mais velhos diziam que ela trouxe consigo no ventre a linhagem dos gnomos. Outros diziam que os que nasciam na aldeia, eram os próprios que haviam desaparecerido na fumaça do mundo exterior.
-Acha que ninguém morre então, senhora?! - perguntou-lhe um garotinho.
-Tenho certeza - respondeu Ivone.
E todos que puderam , bateram muitas palmas para Ivone neste dia...
Ela faleceu naquela noite...Quando os enfermeiros vieram recolher seu corpo , curiosamente encontraram em seu pescoço uma pequena pedra amarrada num barbante, que servia de corrente.

3 comentários:

  1. Um conto digno de um contista irlandês, querida Hilda. Conseguiste levar-me à terra dos Gnomos e dos Trols.
    Os meus parabéns, cara amiga.

    ResponderExcluir
  2. Conto digno de um de um irlandês, querida Hilda. Conseguiste transportar-me para a terra dos Gnomos E dos Trolls. Adorei.
    Os meus parabéns.

    ResponderExcluir
  3. Narrativa digna de um contista irlandês :).
    Conseguiste transportaste-me transportar-me para a terra dos Gnomos e dos Trolls.
    Parabéns, querida amiga.

    ResponderExcluir