domingo, 27 de novembro de 2011

Escrita Criativa...Por Augusto Abade

Escrita Criativa

Depois de tanto ler sobre ‘escrita criativa’, Gusmão resolveu inscrever-se num curso. Pesquisou no Google e escolheu aquele que lhe pareceu o melhor, tendo em conta a proximidade geográfica, os professores (todos escritores conhecidos – devem ser bons pois são também jornalistas), e o preço (a criatividade não é barata).
Estes cursos são rápidos (é a criatividade em acção). Depois de duas horas de teoria, surge o desafio: escrever um texto. Gusmão escreveu o seguinte:

“Depois de tanto ler sobre ‘escrita criativa’, Alberto resolveu inscrever-se num curso. Pesquisou no Google e escolheu aquele que lhe pareceu o melhor, tendo em conta a proximidade geográfica, os professores (todos escritores conhecidos – devem ser bons pois são também jornalistas), e o preço (a criatividade não é barata).
Estes cursos são rápidos (é a criatividade em acção). Depois de duas horas de teoria, surge o desafio: escrever um texto. Eis o texto escrito por Alberto:
Há nuvens pousadas no meu hálito quando me deito   sílabas que correm loucas enquanto bato nas almofadas para ajeitar a cabeça. O dia foi normal, cinco passos adiante e o escritório vesti-o vermelho porque é a cor da mansidão quando olha. Gostei do vestido da Luísa, cilindro até aos pés e fica-lhe muito bem. A Joana tem uns tornozelos horríveis. Bebi dois cafés, vomitei uma vez, redigi quinze actas, apalpei o sovaco dove da Vanessa. Jantei e bebi outro café. Estou a acordar e há nuvens pousadas no meu hálito quando me levanto   sílabas que correm loucas enquanto afasto o lençol para ajeitar o corpo.”

Os professores (todos escritores conhecidos – devem ser bons pois são também jornalistas), depois de lerem o texto de Gusmão, saíram da sala. Mas não sem antes olharem de soslaio para Alberto.

                         ***************    FIM    *****************

Vontade De Dizer ...Por Augusto Abade


Vontade de dizer

Gusmão e Irene estavam sentados à mesa a tomar o pequeno-almoço. Era um dia soalheiro de princípio de Outono. Lá fora, esvoaçavam as primeiras folhas, amarelas e vermelhas, que ambos viam cair entre olhares cruzados para o croissant matinal e a janela que os separava do jardim. Nos jornais entregues à porta uma hora antes, nada havia de interessante para comentar. Sempre as mesmas notícias sobre a guerra que se aproximava.

- Que achas de dar um nome a uma sobremesa para depois a nossa cozinheira imaginar o conteúdo? Ela anda tão entediada a fazer sempre as mesmas…

Gusmão olhou para Irene surpreendido. Ela nunca dizia nada ao pequeno-almoço.
- Está bem. Posso fazer uma lista.

Gusmão levantou-se e foi ao escritório. Quando voltou trazia uma folha de papel e um lápis. Começou a escrever. Nunca na sua longa vida de casal tinham tido um pequeno-almoço assim. Vinte minutos depois, já os croissants meio comidos estavam frios, Gusmão disse para Irene:
- Já tenho a lista de nomes. – E entregou-lhe a folha de papel completamente preenchida com o castanho que usava para escrever as cartas mais importantes.

Irene pegou na folha de papel e leu:

“LISTA
Nomes de sobremesas
Tapete rolante; Hoje não há luz elétrica; Amanhã há peixe fresco; Batida de coco; Não há caneta que aguente; Tinta da China; Fábrica das línguas; Pecador de palavras; O construtor de palavras; Carapaus de corrida; Há nevoeiro no mar; O caracol das letras; O polegar que segura a caneta; Adão e Eva andavam nus; Praia de nudismo; Tinta com areia; Xixi fica para depois; Inventário de palavras; Preciso de óculos para ler; A mão que segura a tinta; Há loiça para lavar; A tinta que escorrega da mão; Manga, maça e peixe assado; De olhos na folha; Manjericos à janela; Folha de desejos; Escrever não provoca enfartes; Espinafres com letras; Não há livros para ninguém; Insónia dos dedos; O teclado sofre de insónia; Palavras sem fronteiras; Tinta sem fronteiras; Rebuçados sem fronteiras; retelingus; Areia demais para a minha camioneta; Vou ali mas fico aqui; Letras de Adão e Eva; O teclado não há meio de emperrar; A camisa de linho; Queijo e marmelada; Não há livros para ninguém; Bastam 5 minutos para devorar; A pena que lavou a mão.”.

- Lamento meu Gusmão querido mas acho que a cozinheira não vai gostar de nenhum destes nomes.
    ***************   FIM   ****************

sábado, 19 de novembro de 2011

Orgasmos Reais e Revoluções Virtuais...Por Mia Torres


Orgasmos Reais e Revoluções Virtuais
Uma vez li, ou disseram-me (já não sei precisar) que o espanto é como a sombra...segue-nos a vida inteira. Mas a sombra, como o espanto, não têm as mesmas medidas, dependem sempre da altura do nosso olhar...!
- Digo-te isto, Tó-tó, porque nunca pensei que me tratasses desta forma...trocar-me por um orgasmo virtual. Eu acho, sinceramente, que não merecia ter de passar por este vexame. Porque é que não falaste comigo? Porque é que não me disseste, olhos nos olhos, que que eu deixei de fazer parte da tua contabilidade de afectos? Eu não mudei, eu continuo a mesma lolinha...De sempre...
A Lolinha que sempre te fez pastéis de bacalhau c/ arroz de feijão vermelhinho e que tanto aprecias; a Lolinha que te dava banho e espalhava o creme pelo corpinho a cheirar a cavalo; a Lolinha que todas as quartas-feiras te fazia um "pilé" e te ensinava a rezar o terço ... Não de joelhos, eu sei, mas em cima da mesa do salão triangular que fazia partilha c/ a Tabacaria, lembras-te ?

A Lolinha que te comprou as camisas, as cuecas e te cortou as unhas dos pés, que foi passear contigo nos primeiros domingos de cada mês, anos a fio teve de ouvir em silêncio o relato das partidas de futebo, e os teus gritos histéricos quando estavas no ponto "M" (de Meloso), que tanto irritaram a tarada da vizinha do lado. Enfim, a Lolinha que nunca te negou a pacificar os teus impulsos de macho e que entrou pela primeira vez numa Sexshop para comprar os teus fetiches ...

Fetiches estes que me agradaram imensamente ou pensas que só tu carregas o peso do tédio!??
Mas me trair com outra virtualmente é irritantemente engraçado porque se pensar bem, eu seria tua amante virtual sem menor problema. Quanto mais se vive, mais se aprende. Então agora o meu vadio particular resolveu vadiar com outra para variar quando eu pretendia continuar variando com ele mesmo.

Resolveu vadiar e mal sabe ele que não vai ter nenhum orgasmo real...espera-o uma revolução virtual...até poderá ser engraçado mas duvido que fique no seu pleno juízo...essas coisas provocam um desassossego emocional perigoso.
Eu não aguento mais esta vida de faz de conta que somos felizes. Há bocadinho estive a olhar-me no espelho e não acho que esteja assim tão velha, tão inutil. Sim, tenho algumas rugas mas eu acho que são sinal de sabedoria...não se pode ter tudo...e os meus sonhos continuam a ser lindos. Por isso, Tó-tó, vai tratar da tua vidinha com essa gaja do FB que te virou a cabeça e que concerteza já ultrapassou o prazo de validade. Eu queria odiar-te, eu queria dizer-te palavrões que te ferissem a alma, mas não consigo. Vai embora e leva o carro as joias ...eu fico só mas não abandonada...terei muitos orgasmos reais mas, nunca revoluções virtuais.
********************************Fim************************************
O título de Mia Torres tem partilha com Fatima Rodrigues e Guerreira.:)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O Engano...Por Hilda Milk

O Engano
  O carcereiro se aproxima da cela e diz:
_Visita para Manuel Costa
Passos lento pelo grande corredor da prisão
O detento segue o guarda como se fosse um autômato
Nem se dá ao trabalho de perguntar quem é a pessoa que o viera visitar pois
a vida parece ter abandonado no dia em que matou Helena
Agora não havia nada dentro daquele homem, nem raiva, nem amor, nem dor e nem alívio, só vazio, um grande e enorme vazio.
Quando entra na sala de visitas é que vê Carolina, a amiga e moradora nos fundos de seu quintal de longa data.
_Como vai Manuel, meu amigo?
Está precisando de alguma coisa?
Trouxe-lhe cigarros e um bolo que de tão revirado na revista, virou farofa.
Lamento muito o acontecido...
Manuel  só movimenta a cabeça em sinal que estava tudo bem. Agradeceu os cigarros e o bolo
_Conversa comigo Manuel,por favor.
Quero entender o que houve homem de Deus!
Voces estavam tão felizes e o casamento marcado para aquela semana fatídica.Devo dizer que ninguém entendeu absolutamente nada do que houve.
A Helena não cabia em si de tanta alegria. Vocês brigaram?
Porque estragou sua vida cara! Porque a matou!
Contratei um bom advogado para você porém, precisas ajudar.
Seu julgamento está próximo, senão cooperar vai pegar pena máxima.


Esta é uma daquelas histórias que  começam pelo fim.
O sujeito matou a mulher com quem ia se casar e agora, estava a espera do julgamento.
_Não me importo mais ,matei a mulher que amava e morri também com ela.
_Mas por que fez isso homem!?
_Quando eu sai de casa  para o trabalho naquele dia percebi que Helena estava com a meia  da perna direita furada,ainda fiz um comentário a este respeito,me despedi e fui para meu trabalho normalmente porém, chegando lá dei pela falta de uns documentos que havia deixado em casa.
Liguei para casa várias vezes e ninguém atendeu. Esperei até a hora do almoço pois com este transito infernal, eu perderia muito tempo.Quando na hora do almoço eu cheguei de volta em casa ela me esperava contente como sempre.Perguntei-lhe se havia saído ela respondeu que não ,deu-me um beijo e foi pegar a comida na cozinha.Quando ela se virou percebi  a meia furada novamente,só que estava na perna esquerda agora.Aquilo foi um impulso ,levantei fui até meu quarto peguei o revolver e descarreguei nela.
Antes de cair ela me olhou com os olhos marejados e falou num sussurrou._Por quê?!
Disse-lhe que nunca admitiria que me traísse.
_Achou que ela te traiu por causa da meia trocada? Porque ela disse que não havia saído?
Eu sei por que a meia estava trocada e sei por que ela te disse que não havia saído.
Estávamos juntas aquela manhã. Ela não havia te mentido moro no mesmo quintal que vocês.
E quanto a meia trocada, eu tinha um par delas,lindas por sinal, que não me serviu e Helena experimentou  para ver se lhe servia e distraída como era,deve ter posto as meias trocadas.
Custo a crer que tenha sido este o motivo do assassinato. Ela estava tão feliz com o casamento e quando soube que  estava grávida então... Ia te contar aquele dia.
Por um momento os olhos de Manuel parecem faiscar... Ia ser pai... Soube quando recebeu o resultado da pericia médica
_Helena era prostituta desde os treze anos e foi assim que a conheci Carol.
Fugiu de casa ainda menina,pois sofria abuso dos pais alcoólatras,segundo me contou ela  morou algum tempo na rua até que,sem muita opção, começou a se prostituir.
No nosso terceiro contato já tinha certeza que gostava dela. Perguntei-lhe se queria largar "aquela vida".ela acenou que sim mas teria que acabar seu curso de esteticista ainda,pois do contrário não teria como se sustentar.
_Eu te sustento até acabar se você aceitar morar comigo. Quer?
_Precisa de mulher pra que?!
_Boa pergunta.Deu um leve sorriso
_Não sei,gosto de você.Sou solteiro faz tempo.Se tentarmos quem sabe pode dar certo.E se não der,cada um volta a cuidar da própria vida.
Ela aceitou com alguma reserva no princípio.Depois de algum tempo os dois não se agüentavam mais de tanto contentamento um com o outro.
pedi-lhe que não contasse a ninguém que era prostituta e ela concordou de imediato, afinal isso não era coisa que se tivesse orgulho.
Minha casa era simples, mas para ela era um palácio.Não tenho "grandes dinheiro." ela me achava rico.
Gostava de sua vós suave, seu andar, suas mãos, seu cheiro.
_Você a matou... Ainda não entendo a razão.
_No dia que lhe dei o anel de noivado a fiz prometer que nunca me enganaria. E ela me jurou que jamais me seria infiel.
Quando ela me disse que não havia saído naquela manhã e juntando o fato de ter trocado a meia, não tive dúvidas, ela estava me traindo sim.
Muito desolada Carolina conclui
_Que coisa triste Manuel! Você na verdade não esquecia que ela era uma prostituta, não? Podia que ninguém de sua família ou amizade soubessem  porém, você sabia.
_Sim e foi por isso que eu a matei, por não esquecer que ela havia sido uma prostituta.
_Acabou a visita, vamos. Disse o carcereiro.
Os dois amigos se despedem e Carolina promete voltar.Manuel não se importa se ela volta ou não.Sua vida acabou.
Carolina sai triste e pensativa.
Helena  dizia que o que estava vivendo era um conto de fadas e Manuel era seu príncipe.
Ela sabia que a amiga havia sido prostituta.Esta contou-lhe uma vez em confidencia. A principio, ficou  tensa com esta revelação,afinal nunca conhecera uma puta tão de pertinho porem, não demorou muito para relaxar na presença de Helena, que era mesmo um encanto de moça,ela não tinha aquela malicia peculiar as profissionais do sexo.E acima de tudo, amava Manuel com verdadeira devoção.
O pobre Manuel agora terá bastante tempo para se arrepender.
**********************Fim****************************