sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O Engano...Por Hilda Milk

O Engano
  O carcereiro se aproxima da cela e diz:
_Visita para Manuel Costa
Passos lento pelo grande corredor da prisão
O detento segue o guarda como se fosse um autômato
Nem se dá ao trabalho de perguntar quem é a pessoa que o viera visitar pois
a vida parece ter abandonado no dia em que matou Helena
Agora não havia nada dentro daquele homem, nem raiva, nem amor, nem dor e nem alívio, só vazio, um grande e enorme vazio.
Quando entra na sala de visitas é que vê Carolina, a amiga e moradora nos fundos de seu quintal de longa data.
_Como vai Manuel, meu amigo?
Está precisando de alguma coisa?
Trouxe-lhe cigarros e um bolo que de tão revirado na revista, virou farofa.
Lamento muito o acontecido...
Manuel  só movimenta a cabeça em sinal que estava tudo bem. Agradeceu os cigarros e o bolo
_Conversa comigo Manuel,por favor.
Quero entender o que houve homem de Deus!
Voces estavam tão felizes e o casamento marcado para aquela semana fatídica.Devo dizer que ninguém entendeu absolutamente nada do que houve.
A Helena não cabia em si de tanta alegria. Vocês brigaram?
Porque estragou sua vida cara! Porque a matou!
Contratei um bom advogado para você porém, precisas ajudar.
Seu julgamento está próximo, senão cooperar vai pegar pena máxima.


Esta é uma daquelas histórias que  começam pelo fim.
O sujeito matou a mulher com quem ia se casar e agora, estava a espera do julgamento.
_Não me importo mais ,matei a mulher que amava e morri também com ela.
_Mas por que fez isso homem!?
_Quando eu sai de casa  para o trabalho naquele dia percebi que Helena estava com a meia  da perna direita furada,ainda fiz um comentário a este respeito,me despedi e fui para meu trabalho normalmente porém, chegando lá dei pela falta de uns documentos que havia deixado em casa.
Liguei para casa várias vezes e ninguém atendeu. Esperei até a hora do almoço pois com este transito infernal, eu perderia muito tempo.Quando na hora do almoço eu cheguei de volta em casa ela me esperava contente como sempre.Perguntei-lhe se havia saído ela respondeu que não ,deu-me um beijo e foi pegar a comida na cozinha.Quando ela se virou percebi  a meia furada novamente,só que estava na perna esquerda agora.Aquilo foi um impulso ,levantei fui até meu quarto peguei o revolver e descarreguei nela.
Antes de cair ela me olhou com os olhos marejados e falou num sussurrou._Por quê?!
Disse-lhe que nunca admitiria que me traísse.
_Achou que ela te traiu por causa da meia trocada? Porque ela disse que não havia saído?
Eu sei por que a meia estava trocada e sei por que ela te disse que não havia saído.
Estávamos juntas aquela manhã. Ela não havia te mentido moro no mesmo quintal que vocês.
E quanto a meia trocada, eu tinha um par delas,lindas por sinal, que não me serviu e Helena experimentou  para ver se lhe servia e distraída como era,deve ter posto as meias trocadas.
Custo a crer que tenha sido este o motivo do assassinato. Ela estava tão feliz com o casamento e quando soube que  estava grávida então... Ia te contar aquele dia.
Por um momento os olhos de Manuel parecem faiscar... Ia ser pai... Soube quando recebeu o resultado da pericia médica
_Helena era prostituta desde os treze anos e foi assim que a conheci Carol.
Fugiu de casa ainda menina,pois sofria abuso dos pais alcoólatras,segundo me contou ela  morou algum tempo na rua até que,sem muita opção, começou a se prostituir.
No nosso terceiro contato já tinha certeza que gostava dela. Perguntei-lhe se queria largar "aquela vida".ela acenou que sim mas teria que acabar seu curso de esteticista ainda,pois do contrário não teria como se sustentar.
_Eu te sustento até acabar se você aceitar morar comigo. Quer?
_Precisa de mulher pra que?!
_Boa pergunta.Deu um leve sorriso
_Não sei,gosto de você.Sou solteiro faz tempo.Se tentarmos quem sabe pode dar certo.E se não der,cada um volta a cuidar da própria vida.
Ela aceitou com alguma reserva no princípio.Depois de algum tempo os dois não se agüentavam mais de tanto contentamento um com o outro.
pedi-lhe que não contasse a ninguém que era prostituta e ela concordou de imediato, afinal isso não era coisa que se tivesse orgulho.
Minha casa era simples, mas para ela era um palácio.Não tenho "grandes dinheiro." ela me achava rico.
Gostava de sua vós suave, seu andar, suas mãos, seu cheiro.
_Você a matou... Ainda não entendo a razão.
_No dia que lhe dei o anel de noivado a fiz prometer que nunca me enganaria. E ela me jurou que jamais me seria infiel.
Quando ela me disse que não havia saído naquela manhã e juntando o fato de ter trocado a meia, não tive dúvidas, ela estava me traindo sim.
Muito desolada Carolina conclui
_Que coisa triste Manuel! Você na verdade não esquecia que ela era uma prostituta, não? Podia que ninguém de sua família ou amizade soubessem  porém, você sabia.
_Sim e foi por isso que eu a matei, por não esquecer que ela havia sido uma prostituta.
_Acabou a visita, vamos. Disse o carcereiro.
Os dois amigos se despedem e Carolina promete voltar.Manuel não se importa se ela volta ou não.Sua vida acabou.
Carolina sai triste e pensativa.
Helena  dizia que o que estava vivendo era um conto de fadas e Manuel era seu príncipe.
Ela sabia que a amiga havia sido prostituta.Esta contou-lhe uma vez em confidencia. A principio, ficou  tensa com esta revelação,afinal nunca conhecera uma puta tão de pertinho porem, não demorou muito para relaxar na presença de Helena, que era mesmo um encanto de moça,ela não tinha aquela malicia peculiar as profissionais do sexo.E acima de tudo, amava Manuel com verdadeira devoção.
O pobre Manuel agora terá bastante tempo para se arrepender.
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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Noticia Sobre A Mulher Com Um Fato De Mergulho Vestido A Observar De Binóculos Os Pássaros Nas Árvores...Por Paula Justiça


Noticia Sobre A Mulher Com Um Fato De Mergulho Vestido A Observar De Binóculos Os Pássaros Nas Árvores

Era uma vez uma mulher que toda a vida tinha sido alegre, que se ria por tudo e por nada, que tinha o humor à flor da pele. Um dia encontrou um homem triste, sisudo e resmungão, por quem se apaixonou. Como ele lhe correspondeu, ela deixou-se levar pelas palavras mansas com que a aldrabou, prometendo que no futuro ia ser um homem feliz. Apesar de por vezes conseguir que ele esboçasse um sorriso, com o passar dos dias e dos anos foi ele que levou a melhor, ela esqueceu-se de sorrir, de rir, e finalmente já nem sequer se lembrava como é que podia ficar bem disposta. Quanto a ele, também esqueceu por completo a sua promessa, apesar de se sentir muito feliz por ter ao seu lado uma mulher cada vez mais parecida consigo. Como moravam numa aldeia recôndita e vendiam livros pela Internet, pouco contactavam com outras pessoas, de modo que o silêncio e o isolamento os foram transformando lentamente em seres estranhos, até para eles próprios. De vez em quando ficavam pasmados a olhar para o espelho, admirados com o aspecto que tinham e que em nada se assemelhava ao que tinham sido. Até que um dia, em que ela mais uma vez se espantava com a imagem no espelho, percebeu que estava farta da vida tão sem sentido que os dois tinham conseguido ter, juntou os seus pertences  e foi viver para uma cabana na lagoa de Óbidos, perto da qual foi há pouco tempo vista com um  fato de mergulho vestido, a observar de binóculos os pássaros nas árvores.
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domingo, 23 de outubro de 2011

Filhos De Ninguém...Por Xue


Filhos De Ninguém

E a pobreza enquanto se apresenta como "falta" tem qualquer coisa de cruel. Lembro de um caso que li certa vez,  de um rapaz que tinha sido miserável  durante toda a sua infância.
Ele chorava muito, não conhecera seus pais, só lembrava de um velho a quem chamava de avô, por vezes pensava que devia ter feito alguma coisa para merecer aquilo, mas o quê? Ele apanhava dos arruaceiros, se escondia dos drogados, tinha medo da policia. Fazia pequenos serviços por uma refeição, e quando dava jeito ia até algum restaurante onde o dono lhe pedia para tirar o lixo em troca de comida.
Um dia ele foi adotado por uma bondosa senhora. Ela deu-lhe um teto ,roupas, estudo, e afeto. Agora não faltava mais comida.
-Que pena o vô ter morrido - dizia para si.
Devagar, a boa senhora foi  lhe ensinando o significado da palavra dignidade. E Assim o moço foi crescendo, e por vezes ainda conseguia ensaiar um singelo sorriso.
Quando chegou na idade, o garoto agora homem feito, foi prestar o serviço militar, era obrigatório. Levado pra guerra, ele não viveu sequer um mês. Quando a senhora recebeu seus pertences, entre suas coisas tinha uma pequena carta dirigida a ela.
-Querida mãe, porque me ensinaste tantas coisas boas? Não consigo matar. Se eu não voltar quero que saiba, o tempo que passei com você foi o melhor de tudo. Obrigado.
Dona Almerinda chorou como jamais havia chorado em toda a sua vida. Ficou sem comer, sem dormir, por algum tempo. Fez tratamento psicológico, os amigos faziam o que podiam para tentar ajudá-la  a superar a dor daquela perda tão sofrida.
Ela era idosa já, e seu estado emocional a deixava fraca, suscetivel a doenças. Um dia aconteceu um fato que mudou completamente  o curso de sua vida. Alguém bate a porta e, mal se aguentando em pé,  Dona Almerinda foi abrir,  achando ser a faxineira. Quem está à porta é uma menina miúda, de roupas rotas e olhos arregalados.
-Tem alguma coisa para eu fazer senhora? Preciso comer, por favor.
O que a senhora vislumbrava ali era o retrato da fome.
Sem qualquer gesto brusco  ela abre a porta lentamente  e dá passagem para a garota. Já dentro de casa, esta prepara e coloca um enorme sanduiche e um copo de leite  em frente a pequena faminta.Em silêncio, ela se dirige para o quarto. Quando acorda, muito tempo depois, sua amiga está lhe trazendo o jantar. E esta lhe pergunta da garota:
-Ela veio pedir o que comer.Eu dei.Como sabes dela?
-Como sei?! Ela lavou a louça, limpou a cozinha, varreu o quintal e quando cheguei ela estava aflita por voce ter dormido o dia todo.
Dona Almerinda ficou pensando. Aquela garota de rua podia ter ido embora depois de comer,não foi. Podia ter-lhe carregado a casa inteira se assim o desejasse. No entanto ficou ali perto dela, que parecia doente demais. Que poderia ela fazer por mim? Nada. Porém. achou-se na obrigação de agradecer a comida.
Enquanto esperava, foi lavando os pratos da pia. Quando acabou foi espiar a ver se a senhora respirava. Achou uma vassoura atrás da porta e seguiu varrendo. Dona Almerinda nunca mandou a menina embora, e a menina nunca se foi. As amigas ficaram de "olho", apreensivas pela amiga, uma vez que tão frágil, esta poderia ser alvo de má fé da garota de rua.
O inusitado é que a senhorinha teve uma melhora de saúde surpreendente. Ambas tinham afeição uma pela outra. A garota, Janaina era o seu nome, falava pouco, e levou muito tempo para contar sua história. Almerinda entendia e respeitava.
Porém, um dado novo traz mudanças de  novo em suas vidas.Uma noite, ouvindo as noticias enquanto a menina estava em seu quarto, Janaina entra na sala para pegar um livro e vê na televisão a foto de um deliquente e começa a gritar.
A velha senhora sem entender, pensando que ela estava com dores, corre a acudir.
-Que foi meu bem? Sente-se mal?
-Não deixe ele me achar, por favor
-Calma, calma, está tudo bem. Niguém vai te fazer mal.
Depois  de acalentada. a menina começa sua narrativa
-Eu morei com aquele homem que apareceu na televisão.
Ele me usava de mulher dele e me dava para seus amigos fazerem o mesmo. Fugi várias vezes, mas ele me achava sempre. Dizia que se eu fugisse novamente me mataria desta vez. Me fazia dizer a todos que era meu pai, mas imagino que não era mesmo. As familias se cuidam e ele  só ganhava dinheiro comigo. Não queria lhe dizer nada disso, me desculpe. É tudo tao feio que a senhora vai sentir nojo de mim agora. Eu fui encontrada no lixo quando criança e uma irmã dele me levou pra casa numa noite chuvosa.
Dona Almerinda mal conseguia conter-se de emoção.
-E a tal irmã dele, onde está?
-Ela morreu  por causa de droga, faz muito tempo
Se ele me descobrir aqui, terei de voltar pra casa, pois é capaz de ameaçar sua vida também.
-Ai  minha filha querida! Vai longe o tempo que eu sentia medo - disse a senhora sorrindo de leve - Bem... acho que chega de emoções por hoje. Vamos dormir agora, amnhã é outro dia. Vamos resolver isso tudo, prometo.
O homem a quem a menina se referia estava preso agora, ela não sabia. Era por isso que seu rosto estava estampado em rede nacional. No dia seguinte Dona  Almerinda resolveu adotar a menina.
Hoje em dia ela já é falecida, porém deixou Janaina crescida e médica formada.
Dizem suas amigas que antes de fechar seus olhos ela disse à filha adotiva:
-Quero-te dizer o quanto sou grata por ter vocâ em minha vida. Acho mesmo que tive muita sorte. Vivi duas vidas. E foi por causa de você que eu ressuscitei.
Janaina, emocionada, dizia:
-Eu também tive sorte e duas vidas.
As amigas estavam todas lá, juntas. E de fato nunca tinham visto uma pessoa morrer feliz.
Janaina não estava mais sozinha agora. Seu filho nasceria logo, as amigas de Dona Almerinda esperavam sinceramente que ela e o marido fossem muito felizes.
 Era tão bom se todos os filhos de ninguém encontrassem alguém!
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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Filmagem ... Por Augusto Abade

Filmagem


Acordei ao lado de um pequeno adereço de plástico que diz que me chamo Alberto Mouro Barreto e nasci em Benafim. Se está num adereço de plástico deve ser verdade. Não recordo muitas coisas mas certas palavras batem-me na cabeça como neurônios necessitados. Não me perguntem o que são neurónios e do que eles necessitam porque não sei. Palavras. Lista. Lista, outra palavra (mas o que é uma palavra?) que vejo na minha cabeça.  Lista: ondas, cutileiro, título, pescadores, restaurante, monarquia, vale, travesseiro, biblioteca, cama, hoje, livro de costados, ali. Imagens feitas palavras ocupam o meu corpo e só sei que me chamo Alberto Mouro Barreto e nasci em Benafim porque um adereço de plástico me diz isso.
Tenho fome. Apetece-me um bife daqueles bem tenrrinho, mal passados, com batatas fritas, arroz branco e esparregado e, claro, um ovo estrelado. É isso! Já me cresce água na boca. Vou ter com a Laura e vamos jantar fora.
- Laura!...
Ah? Que se passa?
- Laura!...
Não me ouço!
Laura!...
Mexer os lábios como quem fala, mexi, pois toquei-os com os dedos, mas não ouvi nada!
Só me faltava mais esta... Como se não bastassem as confusões do acordar!...
Só sei que me chamo Alberto Mouro Barreto, tenho fome por ter agua na boca, chamo Laura, mas não me ouço. Será que ainda estou dormindo?
Não. Estou debaixo de um viaduto, deitado num colchão sebento, mas não estou a dormir, sinto a brisa, o odor acre de urina, o corpo empastado. Parece que estou a acordar de um pesadelo. De onde vim? Como vim aqui parar? Quem sou eu? Como sei que estas são questões filosóficas? Tento mover-me, o corpo não me obedece, se calhar já estou muito velho para poder dar ordens ao meu corpo, Só de pensar na velhice fico de repente imensamente triste, vem-me à cabeça a face enrugada do meu avô. Sim, tenho a certeza que é ele que me continua a segredar aos ouvidos palavras estranhas, como quando me dava a mão e íamos pela rua em silêncio, quando se baixava para mim e dizia: hermenêutica, epistemologia, gnoseologia, axiologia, são disciplinas filosóficas, qualquer dia explico-te o que estuda cada uma delas.
Não. Um pedaço de plástico pousado ao meu lado diz-me quem sou. Eu sei quem sou: Alberto Mouro Barreto e nasci em Benafim. Laura! Quero o meu avô! Avô nunca me chegaste a explicar essas coisas confusas que vejo sob a forma de árvores na minha cabeça.
Laura, és tu que estás ao meu lado? Onde é Benafim?
Estava a ser filmado, Reparei num homem com uma grande máquina de filmar, atrás dele um outro com um micro do tamanho de uma cauda de cavalo, os dois voltados para mim! Será que estou morto e aqui o que fazem aos recém-chegados é uma entrevista, para saberem se havemos de ir para o céu, inferno ou purgatório?

- CORTA! Ouviu-se a voz do realizador - Ficou óptimo.
Amanhã, às nove todos aqui para a nona cena.

 ***************************Fim*******************
Este Abade fez em partilha com Betina,Paula e Hilda.:)

Morri No Outono...Por Paula Justiça


Morri No Outono
Não me lembro do dia nem mês, mas sei que estavamos no Outono. Mataram-me e é isso que vos venho aqui contar. Não é que tenha sido uma morte espectacular, mas vale a pena ser contada, pois não há muitas mortes como a minha. Estava um calor nada normal para a época do ano, por isso lembro-me que estava vestida com uns calções desbotados e uma blusa bastante colorida, largueirona e sem mangas.
Como todos os grandes assassinos, K. teve a pobreza como má conselheira. Os rendimentos não eram elevados, mas as despesas eram tiranas e as dívidas tiranos dobrados. Um homem que não ganha o suficiente para deixar dinheiro de lado tem qualquer coisa de repugnante, como aqueles filantropos, que gastam a fortuna a socorrer os outros, sem cuidar dos seus herdeiros. Joaninha dos olhos verdes, sua amiga, já me tinha dito: este homem não é mau, é simplesmente infeliz. E a mim me disse uma vez, face to face, eram já umas duas da manhã: Serás tu mau, meu amigo?    
- Não! respondeu-me sem grandes hesitações...Não sou mau, sou pobre!
Bem... Morrer no outono não é de todo mau também, uma vez que temos mesmo que morrer. O dificil realmente é alguém ter a pachorra de matar-me. Que diabo eu fiz para merecer isso? Está bem, não sou nenhuma santa porém, tem gente bem pior que eu por ai, que morre  de velhice. Quisera eu ter chegado aos sessenta anos, teria tido mais tempo para aproveitar a minha aposentadoria, caramba! Só trabalhei a vida toda! E aqueles calções desbotados! Bem podia o assassino ter me avisado antes: -Vai  arrumar-te melhor um pouco, porque hoje tu vais morrer com estilo.Então eu me vi  morta diante de um médico de olhos lindos mas, vestida daquele jeito desmanzelado, não, ninguém merece mesmo isto.
É claro que é uma palermice deduzir que os pobres são semelhantes aos maus, felizmente quando agem incorretamente não é pelas mesmas razões e consigo muito bem vislumbrar que os motivos que podem levar uma pessoa má a matar não são os mesmos que conduzem um pobre a um ato indecoroso. Matar alguém custa muito, principalmente quando não estamos habituados a isso. K. estragou a vida dele com a minha morte, não lhe perdoo e vou assombrá-lo até ao fim dos meus dias! Só quando a minha alma desaparecer da face da terra o libertarei, mas não sei dizer o tempo que isso vai demorar, porque segundo me disseram terei de andar aqui até que me libertar de todos os ódios e raivas. Será verdade?
Se era para me roubar os Euros, foi desnecessária a minha execução, pois eu teria-lhe dado o que tinha . É verdade que ia ficar com muita raiva depois, mas raiva é uma coisa que dá e passa. Que o "filho da mãe", me perdoem o palavreado, me deixasse nua e eu ia continuar vivendo com este episódio, ia ter até quem achasse graça no acontecido. Nãããão...O bobão tinha que me exterminar! Muitas vezes lhe roguei a praga, mesmo antes de ele o fazer, de que um negro anão e gigante o acabaria por sodomizar, mas isso foi nos tempos em que não me largava, porque queria casar comigo, ou pelo menos era o que ele me fazia acreditar com os seus poemas melados e com os discursos que intercalava nas serenatas às cinco da manhã!
Primeiro assediou-me. Deixei-me ir porque estava num daqueles dias em que o ego anda mesmo a arrastar-se pelo chão. Disse-me pela centéima vez que se sentia atraido por mulheres como eu, mais velhas e com um ar desengonçado. Não sei o que me deu para acreditar em tantas falácias seguidas! O certo é que acabei por o deixar entrar no meu mundo, que era a minha casa. Plantas por todo o lado, livros a cobrirem as estantes e o chão, pó a tapar as janelas da luz teimosa do sol. A louça da Vista Alegre a colorir a vitrina do armário da sala! Logo que a viu começou a perguntar o que sabia eu sobre a origem de cada peça e sobre o seu preço. Mas eu sabia muito pouco deste assunto, a louça tinha me sido dada pela minha mãe, nunca lhe achei piada, mas guardei-a da mesma forma que ela o faria. Da Vista Alegre só me lembro do museu e das noites de festa, quando as moscas pousavam na comida, mas adoro a minha mãe!
A verdade é que eu estava com vontade de ouvir aquilo tudo.De sentir alguém interessado no  que digo e no que sou. Há que tempos que ninguém me fazia sentir especial! Não importava se aquilo era falso ou verdadeiro, o facto é que naquele momento me senti aquecida. Posso até culpar o miserável por me matar, mas eu também contribui significativamente para isso, pois deixei-o chegar demasiado próximo, depois de andar uma vida inteira a mandá-lo bugiar. Imagino agora o discurso com que se poderia defender:
- Verdade verdadeira é que nunca matei ninguém virtualmente... nem mesmo por amor! Foi só por interesse! Sou um avatar pobre e mau. È verdade que nem todos os pobres são maus...mas eu nasci na Rua da Rosa em Lisboa, num sotão imundo, no mesmo dia do Camilo Broca. Uma triangulação astral lixada! Matei porque queria ficar com  o serviço da Vista Alegre  da mãezinha dela, que era do tempo da Carlota Joaquina! Não sou doido... sei perfeitamente o valor de cada peça! Uma parte dos nossos males provém de haver demasiados homens excessivamente ricos ou desesperadamente pobres. Por felicidade, no nosso tempo, tende-se a estabelecer um equilíbrio entre os dois extremos. O crime, tal como o casamento que ela  sempre me negou, talvez por pressentir o meu lado errado da noite, são um meio como outro qualquer para criar valor e atingir os nossos objectivos! Hoje posso viver tranquilamente no México, onde sou famoso como pintor.
- Sim, assumo, apelidaram-me de Di Cavalcante, devido às minhas múltiplas facetas, porque adorava pintar a sensualidade das mulheres, em especial das mestiças. Apaixonei-me loucamente por uma mestiça e tornei-me um boémio, que amava a vida acima de qualquer coisa.... enfim... até que chegou o Outono, apanhei a febre das carraças, adoeci, nunca mais a vi! Provavelmente receava que lhe passasse o febrão, de modo que se pôs a andar antes que eu a deslumbrasse com os meus conhecimentos do Kama Sutra, que acabara de estudar num curso de verão em Amarante, dado por uma excêntrica que lia poemas a meio da noite na torre da igreja, tal como eu lhe costumava fazer, sentado na escadaria do outro lado da rua.
Viver não é fácil, mas morrer ainda mais dificil é. Estrangulou-me! Ainda me lembrei da Higiene do Assassino enquanto ele me estava a apertar o pescoço, uma peça de teatro que fui ver em Aveiro, mas no minuto seguinte estava morta! Agora, que já passou mais de um ano, ele conseguiu recompor a vida e está no México, segue os passos da Frida e tornou-se um pintor de renome. A mim esqueceram-me, talvez seja referida na Biografia dele, quando descobrirem que foi ele o assassino, ainda por cima por causa da louça da Vista Alegre! A  minha vingança é assombrá-lo, dar-lhe cabo da vida aos poucos, arranjar forma de darem com as evidências que possam provar quem foi o culpado. É certo que sempre recusei ir para a cama com ele, namoriscar e casar-me, mas mesmo que não tivesse sido por isso e tudo se tivesse resumido à louça da Vista Alegre, não me parece uma razão válida e suficiente para me ter morto, ainda por cima num Outono como já não havia há setenta anos, um Outono quase Verão!
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Este foi iniciado por Paula e continuado por Fátima, Hilda e Zeke.:)

A Caixa De Chocolates...Por Paula justiça


A Caixa De Chocolates

Comi-os todos, não sobrou nem um! Primeiro comi os que estavam embrulhados em prata vemelha, depois os da prata verde, a seguir os da
amarela, mas não consegui parar e depois foram todos os outros! Faço sempre isto quando me oferecem chocolates, o estranho desta vez é
 que quando voltei a olhar para a caixa ela estava cheia. Então no dia seguinte repeti a dose. Ela voltou-se a encher dutante a noite. Depois de
 uma semana comecei a sentir-me realmente mal fisicamente, apesar de andar muito mais alegre do que o costume. A minha cara estava cheia de pontos negros, parecia novamente uma adolescente com acne, com seborreia na pele, com caspa no cabelo. É claro que não foram só os chocolates, foi toda a minha vida que mudou no espaço de uma semana. Estou arrasada!
- Ela mudou toda a minha vida. Solitário no meio dos meus irmãos de roupa vermelha, de roupa verde, de roupa amarela, eu, com a minha
roupa cinzenta nunca era escolhido. Depois chegou ela e comeu-me. Isso mudou tudo. Sendo solitário, sempre fui pacífico, nunca me identifiquei
com os serial killers das séries americanas, em que uma criança solitária se transforma necessariamente em assassino. Mas desta vez aconteceu. Ela mudou toda a minha vida ao comer-me. Matei os meus irmãos, reproduzi-me e continuei a ser comido por ela.
Ouvi o chocolate a lamentar-se e pensei, como sempre, que estava a ter alucinações, mas não me importei, estou habituada a sensações estranhas, que os outros não podem entender, nem sequer o meu filho! Sempre que o posso observar sem ele notar fico estarrecida com a sua delicadeza, com os seus gestos suaves, com o cuidado que tem em não estragar nada. Como pode ele ser o oposto de mim? Tenho pena que me tenha de aturar, que não se posso livrar de uma mãe que não o pode fazer feliz. Já repeti muitas vezes isto ao trinca-espinhas, mas depois da caixa de chocolates se ter excedido ele resolveu ir dar um giro, estava farto de me aturar!
Poucos minutos depois reapareceu, trazendo uma caixa de gomas com as cores do arco iris... sim, eram gomas de mascar, diferentes das americanas, a que eu estava habituada. Uma vez que elas são docinhas e simplesmente mascadas...vão-me ajudar a trazer sentido à vida. Adoro comer guloseimas diferentes! Espero que meu fígado aguente, pois vou comê-las até me fartar!
Isto era o que eu estava a pensar enquanto comia as primeiras gomas, mas ainda não me tinha apercebido que também com elas aconteceria o mesmo, que se iam reproduzir como os chocolates e que não ia parar de comer chocolates e gomas até ficar doente. Foi o que aocnteceu, gradulamente. Por isso é que uma manhã vi o trinca espinhas a fazer a mala para ir embora. Com uma espinha na boca, como sempre!
Não tive pena, estava farta do cheiro a peixe! Os chocolates e as gomas fizeram-me esquecer de mim. Fiquei feia, com a pele brilhante e exageramente gorda, demasiado de repente! Que homem poderia querer estar com uma mulher assim? Mas para que queria eu um homem, tendo gomas e chocolates sempre à disposição? Para que queria eu alguém para me fazer esquecer de mim, se isso podia acontecer de cada vez que mastigasse?
O que eu mais gostava nele era a companhia e acabara de perder um grande amigo, só de pensar nisso mais vontade me dava de comer! Também me agradava que fosse tão esquelético, porque detesto homens com mamas, só de os ver fico arrepiada, imagino as carnes caídas e perco logo todo o apetite! Só não me consigo recordar como nem quando resolvi substituir os homens pela comida, mais propriamente pelos chocolates e pelas gomas, que se tornaram a única forma de me acalmar. É bem verdade que um homem pode ser muito gostoso quando bem degustado, e vá lá, também não engorda e faz milagres à pele. Deve haver um jeito de escaparmos dos vicios! Enquanto penso nisso, vou enchendo meu pancreas destas porcarias deliciosas.
Passado uns dias soube que o  trinca-espinhas tinha emigrado  para o Brasil. Não demorou nem um mês e já tinha casa, telefone fixo e internet. Tinha saudades minhas e começou a contactar-me assiduamente, sempre a tentar convencer-me a ir ter com ele, a deixar o meu filho entregue ao pai, a esquecer as gomas e os chocolates, a mudar de vida. Mandou-me a cópia do CD dos Deolinda por correio, depois de me postar todos os dias a canção no meu mural, até já a sei de cor! Entretanto, para além do meu aspecto ter piorado drasticamente e ter passado as férias do verão em casa, comecei novamente a trabalhar, o que fez com que as conversas com ele se reduzissem e a sua convicção em me convencer diminuisse gradualmente.
É Outono em Portugal, mas no Brasil é Primavera. Lembrei-me disto enquanto falava com ele ao telefone, ao mesmo tempo que comia uma romã sumarenta e docinha. Enumerava-me as cores dos alimentos que estava a comer, vermelhos, amarelos, azuis, porque nasci eu a preto e branco? Todas as minhas conversas com ele eram dietéticas, minimais, herbívoras, ele contava-me as refeições que fazia e eu falava-lhe do quintal, dos roxos, dos verdes, dos castanhos, porque é que o Outono me entristece? O meu filho, coitado, só ouvia as minhas frases monocórdicas sobre as aventuras  no meio das plantas e pensava que eu estava a enlouquecer:
- Se fosse primavera, as trepadeiras não tinham coberto os telhados. Na Primavera as flores voltam a cobrir o quintal. Se fosse primavera, os pardais empoleiravam-se nos espantalhos.
-Só consigo ver os  picos dos cactos com os óculos novos. Os cactos tomaram conta das traseiras de todas as casas.
-Foi por causa dos maracujás que não me piquei nas urtigas. Vi a cara dela quando começou a anoitecer. Foi por causa das urtigas que fiz esparregado e que a cara dela me pareceu a minha.
- Está um monte de sonhos no quintal, parecem folhas. Se eu comer este monte de folhas, passo a noite a caminhar em direcção à lua.
- Mãe, porque dizes essas palermices ao telefone? Porque é que ele te deixou? Porque não deixas de comer chocolates e gomas? Não vês que estás cada vez com pior aspecto? Não notas que a tua pele está toda estragada? Mãe, porque não te sentas aqui a falar comigo? Porque tenho de ser eu a tomar conta de ti e não tu de mim? Não seria normal que me perguntasses o que fiz durante o dia, se as aulas correram bem, se já namoro? Porque nunca me perguntas nada? Se fores para o Brasil levas-me contigo? Mãe, por favor, não me deixes com o pai, odeio-o!
Sim, era essa a razão de eu continuar a querer esquecer-me de mim, o relacionamento com o pai do meu filho continuava a ser o meu maior pesadelo! Desde o momento em que o deixei que tenho alucinações, como ouvir o chocolate a lamentar-se por ser comido ou o limoeiro a chorar por estar doente, ver as flores a dançarem no quintal e as borbuletas a darem saltos mortais. Não conseguia explicar isto ao miudo, o que me tinha acontecido e o que sentia, por isso ficava calada, à espera que ele contasse tudo o que quisesse sem eu ter de lhe perguntar seja o que fosse! Às vezes apetecia-me pedir-lhe ajuda, pedir-lhe que levasse as gomas para dar aos colegas e que deitasse fora a caixa de chocolates.
E foi o que ele acabou por fazer, mesmo sem eu lhe pedir! Queimou-a na lareira e fez desaparecer as gomas. Na semana seguinte o trinca-espinhas voltou, já sem a espinha na boca. Vinha cheio de cores e de odores, conseguiu agradar-me e aceitei-o de novo. A minha vida voltou ao normal, faziamos amor uma vez por semana, ele fazia-me o pequeno almoço ao domingo, eu fazia o do meu filho durante a semana, o miudo começou novamente a ter boas notas, eu voltei a ser paciente no trabalho, aceitei passivamente que me baixassem o ordenado, mas continuamos a ir ao centro comercial aos sábados de manhã à procura das promoções, quando tinha menos gente e ninguém reparava no nosso fato de treino desbotado. Até que num sábado, quando abri a porta da entrada, estava pousado no tapete um embrulho igualzinho ao que me tinham dado há uns meses atrás, desembrulhei-o apreensiva, ali estava novamente a caixa de chocolates!

*************************Fim*********************************************
Paula faz partilha neste com Abade, Maria de Fatima e Hilda.:)